terça-feira, 27 de outubro de 2009

Da importância do riso.

Em um de seus últimos trabalhos, Maiakóvski satiriza a esterilidade do governo stalinista.

Vladímir Maiakóvski escreveu O percevejo em 1928, sob a égide do asséptico período stalinista. A peça fazia troça do aburguesamento nascido da Nova Política Econômica, estabelecida por Lênin em 1921, e da unilateralidade da arte destes novos tempos; esvaziados que estavam de ideais revolucionários.


Prissípkin, ex-operário, ex-membro do partido e atualmente noivo, muda seu nome para Pierre Skrípkin a fim de casar-se com Elzevira Renaissance, manicure filha da rica cabeleireira Rosália Pávlovna. Com o dinheiro de “mãezinha” Renaissance, Prissípkin e seu amigo Baian (um ex-proprietário) compram toda a sorte de produtos vermelhos para a realização do casamento “eminentemente vermelho”.

Depois de um acidente que o deixou 50 anos congelado, Prissípkin volta à vida em um mundo onde o comunismo está globalmente instaurado e onde um seresteiro como ele tornou-se um grave elemento de subversão. Maiakóvski passava então por uma séria desilusão com o regime, retratando em sua peça o período em que vivia e também os anos que se seguiriam - após seu suicídio, em 1930, a situação se agravaria ainda mais com a implementação do “Realismo Socialista”.

O poeta que se tornou um dos emblemas da Revolução de Outubro começava a tornar-se ciente da trajetória e das consequências vividas pela arte desde então. Como avalia Boris Schnaiderman no prefácio da antologia Poesia russa moderna (Perspectiva, 2001), “A grande convulsão social requeria uma linguagem desvinculada dos padrões herdados de uma época de tranquilidade burguesa. A poesia das praças e dos comícios não podia falar a linguagem dos salões e das academias”. Maiakóvski, desde que deflagrara em 1912 o Futurismo russo, encarnava esta voz.

Em seu texto Eu mesmo ele deixaria registrado:
“1917 Outubro - Aceitar ou não aceitar? Semelhante pergunta não existia para mim (e para os demais moscovitas). A minha revolução. Fui ao Smólni. Trabalhei. Tudo o que era preciso”.

A recepção de seu Percevejo, no entanto, ocorreu em meio a dissonâncias. Críticas davam conta que o autor não havia abordado a luta de classes em sua peça, tampouco a vida da classe trabalhadora e a de seu personagem principal em meio ao coletivo, “na atividade social”. A obra do poeta que vinha sendo acusada de “incompreensível para as massas” carregava agora o rótulo de espírito anti-soviético.

A peça causou séria discussão sobre a necessidade da sátira. Os membros da RAPP (Associação Russa dos Escritores Proletários) consideravam que a prática traria prejuízo ao Estado Soviético - havia a crença que ela não poderia existir na ditadura do proletariado, pois fatalmente atingiria o Estado e a sociedade. Meyerhold, grande nome do teatro russo e diretor da peça, em entrevista ao jornal Vetchernaia Moskva tenta em vão repelir as críticas dizendo que a força do texto está contida na ideologia verdadeiramente soviética da peça (mais tarde Meyerhold viria a ser mais uma vítima do Terror stalinista, sendo preso e torturado até a morte).

É tentadora a analogia traçada com facilidade entre o desfecho da obra e o do próprio Maiakóvski. Prissípkin vira atração de um Zoológico; ao ver tantos semelhantes a observá-lo, questiona porque está sozinho em sua jaula. Ora, graças à análise de “sinais miméticos” provou-se que ele não era um Homo sapiens, e sim um Philistaeus vulgaris. Maiakóvski, apesar de seus esforços, passou seus últimos anos de vida isolado entre seus contemporâneos. Chegou a filiar-se a RAPP como tentativa de levar sua arte adiante, mas ainda assim em sua última apresentação pública (em 9 de abril de 1930, cinco dias antes de seu suicídio) foi novamente desacreditado pelo público.

No Brasil, Luís Antonio Martinez Corrêa pretendia encenar O percevejo em 1974, mas teve que esperar até 1981 por causa da proibição da censura. A presente edição, contempla a tradução feita por ele e cotejada por Boris Schnaiderman.

*[publicada no Correio Braziliense - 26 de setembro de 2009]

sábado, 3 de outubro de 2009

Tropicalistas; ESTRO.

Indo contra o usual resguardo, é oferecido ao mundo o grupo do amor.


Vinna Baptista, Thiago Veloso, Luê Lee, Vlad Dias, Bernardo Zé, Samuel Duprat, Jon Gil, Clau Costa, Elton Neto e o ausente, mas presente no quadro poundiano, Tiago Leão.


Num lanço de dados, ancoram escritores, cineastas, psicólogos, fotógrafos, músicos e filósofos. A reunião dos cupinchas engendra um clamor por Virgílio nas portas dos banheiros, Maiakóvskis engastados na alma e dentes à mostra.


É trazido a público o manifesto, o ESTRO.



o cio, o ócio, a força criadora; o ESTRO.

engenho poético- que ele esperte furioso, endureça; vivo!


que se durma até mais tarde e que guimarães rosa abarrote escaparates dos “pegue e pague” do mundo- que todos os tons e olhos do libriano zé lá também estejam.

engenho poético- que ele esperte furioso, endureça; vivo!


o furor é ESTRO. a tropicália, antropofagia, jorge amado e epicuro; ESTRO.

vi gil pegar a cadência da remada; comi-o. vi caetano entoar laia, ladaia, sabadana, ave maria; comi-o.


xiquexiques, tchatchatchas e baiões de gonzaga ganham as ruas.

que se enunciem desculpas e não “sorry’s”. mas que shakespeare seja lido.

o artifício do bardo é ESTRO. a “comedia” do florentino é ESTRO.

engenho poético- que ele esperte furioso, endureça; vivo!


lá vem o cantorio do povo em transe, o maracatu, o mangue beat.

o sempre novo delíriofala de glauber é pra ser ouvido e a educação parida pela pedra de joão cabral; pra ser cantada. a alvura precisa d’alguma poesia de drummond é ESTRO.

engenho poético- que ele esperte furioso, endureça; vivo!


montado no cavalo de pau de alceu é que se defronta os moinhos cervantinos.

promulgado o roubar e dar flor a amantes, namoradas, noivas, mães, tias e avós.

que os respingos quentes do mijar na terra encontrem as canelas das crianças livres que vêem a grama grassar.

engenho poético- que ele esperte furioso, endureça; vivo!


que não se ostente mais fotos na neve e que as crianças não assistam mais superman.



sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Germana.

eram todos semelhantes. uma conformidade velada; diferente daquelas onde o encontro dos olhos faz brotar o sorriso.

nivelavam-se nos minutos de pausa, nos assuntos do dia a dia. os jogos de poder tinham suas regras obedecidas; os menos talentosos para as partidas sofriam um tanto mais.


germana não sorria. vinha de outra geração, de um mundo mais cheio de cautela. trazia de casa seu próprio café.


sem firmar-se, não era lembrança longe dali. absorvida nas mesas de refeitório, deixada de fora nas risadas após as dezoito.


um dia não estava mais lá. transferida para o turno da noite. seu nome foi lembrado quando nenhum dos semelhantes o quis esquecer.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Parangolés.

“E depois eu estou cansado de ir nos lugares para ler coisas na parede. Não aguento mais. Eu estou de saco cheio.”


Hélio Oiticica foi um dos maiores, mais respeitados e comentados artistas brasileiros. Quase trinta anos depois de sua morte, a Azougue Editorial lança estes Encontros, um apanhado representativo de entrevistas feitas ao longo de sua carreira.


Oiticica começa a estudar pintura em 1954, com Ivan Serpa, no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro. Adere ao movimento de arte concreta com o Grupo Frente e em 1959 funda, com Ferreira Gullar, Lygia Clark, Lygia Pape, Amílcar de Castro e outros, o movimento “neoconcreto”, que reinventou o concretismo, agora como arte participatória -- física, intelectual -- além de socialmente engajada.


Quando o movimento se dissolve, o artista segue só com suas pesquisas. As primeiras formas geométricas que engendra buscam materializar conceitos de ciência, arte e sociedade; pintando grades fora de alinhamento ou abrindo fendas entre blocos de cor, Hélio sugere a desestabilização de sistemas sociais opressivos.


Em 1965, os artistas plásticos brasileiros voltaram a se organizar em torno de um movimento inspirado na linguagem pop e na indústria, Hélio, no entanto, já tinha uma obra própria. Enquanto artistas como Vergara ou Roberto Magalhães falavam em “sair da parede para o espaço”, Oiticica já realizava trabalhos que envolviam a participação direta do público: “penetráveis”, labirintos de portas basculantes monocromáticas; “bólides”, caixas com conteúdos e compartimentos para serem explorados; e “parangolés”, suas capas para dançar, esculturas móveis que só se desvelam com a participação de quem as veste -- desenvolvidas desde que se tornara passista da Mangueira (1964). Tinha a intenção de demolir a barreira entre o artista e as massas, visando uma ativa participação na criação e interpretação da arte:


“A arte na verdade é universal e corresponde a um plano cósmico da existência humana, e quanto mais universal for, mais mescladas estão as diferenças puramente dialéticas que são elevadas a um plano de pura vivência cósmica, maior ou menor segundo o caso, permitindo assim, e só assim, o puro exercício criador do espírito.”


Em breve sua arte seria descoberta por Guy Brett do The Times, e por Paul Keeler, dono de uma galeria de arte de vanguarda em Londres.

Em 1966, elabora o conceito de Tropicália, com base na ideia de antropofagia (1928), de Oswald de Andrade para, em 1967, evocar a vida urbana na reconstituição de uma favela, com areia no chão, cortinas de náilon floridas e uma televisão na instalação de mesmo nome, na mostra Nova Objetividade Brasileira:


“Quando inventei, no verão de 1966-67 (verão brasileiro), o conceito de Tropicália (a palavra-conceito), não podia imaginar toda a sua extensão, embora quisesse dizer com ele, implicitamente, o que ele acanou sendo: a definição de um novo tipo de sentimento no panorama cultural geral.”


Neste mesmo ano, Glauber Rocha lança “Terra em transe”, José Celso encena “O Rei da Vela” e Caetano Veloso concorre com “Alegria, alegria” no festival de música da TV Record. A totalidade destes fatores viria a criar então o movimento ao qual Oiticica é mais facilmente associado; o tropicalismo.


Os vinte e três relatos, sejam eles entrevistas ou depoimentos, contidos neste volume da série Encontros, contemplam o período de 1961 a 1980 (incluindo inclusive a última entrevista de Hélio). Entre as gratas surpresas do livro, encontra-se uma gravação de Oiticica para Augusto e Haroldo de Campos, uma entrevista feita por Lygia Pape, outra junto com Capinam para o Pasquim e um depoimento apelidado de “Brasil diarreia” feito para Arte brasileira hoje (publicação organizada por Ferreira Gullar)..


Entre os diversos volumes publicados nesta coleção, encontram-se Gilberto Gil, Jorge Mautner e Zé Celso Martinez Corrêa. Para breve a editora espera lançar Gilberto Freyre e Tom Zé.


*[publicada no Correio Braziliense - 05 de setembro de 2009]

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Os não suicídios.


Por mais que emule os ídolos que abandonaram a escrita, mais um livro do catalão chega ao Brasil.


Enrique Vila-Matas é um curinga. Escritor de escritores -ou metaescritor, como dita o rótulo-, sua carreira baseia-se em retratar seu ofício em uma série de livros premiados. O catalão define sua literatura como “vilamatasiana” e admite que se identifica com os personagens que engendra; uma galeria de tipos propensos à negação.

Nestes Suicídios exemplares -livro de 1991 publicado agora pela Cosacnaify-, Vila-Matas mostra-se como um escritor do “Não”. Os personagens que figuram em seus dez contos assemelham-se por negar a vida para depois vir a negar o suicídio. A necessidade de desaparecer além de mote da obra; que segundo o escritor, “já nasce suicidada”; é também o que trará novamente seus personagens à vida- de uma forma ou de outra.

Assim acontece com o moderado pintor Panizo del Valle em um navio com destino a Babàkua. Ao travar conhecimento com um nativo que lê e fala ao revés, tem a fé em sua própria arte abalada por ele e não vê outra solução, senão adentrar de pijama a selva daquele país assim que pisa em terra firme. Destino análogo ao de Anatol, escritor malogrado que vê como insuportável a ideia de alcançar sucesso. Homem modesto, ao constatar que sua obra literária seria publicada, pega um barco e deixa pra sempre a ilha de Umbertha; “a obrigação do autor é desaparecer”.

A impossibilidade de concretização de seu próprio fim é a fonte de ironia, inspiração e de humor dos suicídios exemplares; já a inépcia e a renúncia são traços contínuos não só destes contos, mas da prosa de Matas. Essa “pulsão negativa” ecoa em toda criação do escritor, e com mais força em um livro da mesma irmandade, Bartleby e companhia (publicado pela Cosacnaify em 2004).

Iniciando com a epígrafe de Jean de la Bruyére “A glória ou o mérito de certos homens consiste em escrever bem; o de outros consiste em não escrever”, esta obra batizada em homenagem a um personagem de Herman Melville (Bartleby, o escrivão), discorre sobre a “síndrome de Bartleby” -uma profunda negação do mundo. O próprio autor admite sofrer desta síndrome; Vila-Matas é portanto, um Bartleby. Já o aludido Melville, enxergava importância na abnegação, mas de um modo um pouco diverso; em Hawthorne e seus musgos ele pronuncia: “No túmulo de Shakespeare jaz infinitamente mais do que Shakespeare já escreveu. E, se exalto Shakespeare, não é tanto pelo que ele fez mas antes pelo que não fez ou se absteve de fazer”.

Entrementes, a negação presente em Vila-Matas ainda assim não se assemelha a um signo de derrota ou desistência. Os suicídios exemplares são sim, uma deliciosa tentativa de vida nova, reflexo da prosa incomum de seu inventor. Afinal, como diz o próprio, “Dizer é inventar; seja falso ou verdadeiro”.

*[publicada na revista Brasileiros de agosto de 2009]

Os frutos da revolução.

Livro resgata a vida do ídolo e tumultuoso período histórico.

Depois de mais de oito anos de trabalho de pesquisa, o jornalista Carlos Marcelo compõe uma das mais completas biografias do cantor Renato Russo, um panorama sobre a gênese de Brasília e a retomada de mais de 40 anos de música brasileira – e internacional- neste seu segundo livro.
O ponto de partida é controverso show de 1988 no estádio Mané Garrincha, para logo em seguida voltar-se à década de 60; ao desenvolvimento de Renato e da Legião; e seguir o ídolo até seus últimos dias. A vida do cantor surge aqui análoga à de Brasília, as duas existências- que viriam se cruzar na adolescência- são retratadas com escrita atenta e agradável. Na capital recém-inaugurada, Aldous Huxley passeia com Gilberto Freyre, comentando sobre a apoteose de Niemeyer enquanto o funcionário público Ney de Souza Pereira dá os primeiros passos para tornar-se Ney Matogrosso. Já Renato Manfredini Júnior vai aos poucos descobrindo o mundo por meio do cinema, da música e da escrita. Enquanto Chico Buarque engendra Julinho da Adelaide para burlar os censores, Renato descobre os encantos e tenta entender porque se sente tão próximo de Bob Dylan. O livro deve interessar tanto aos curiosos quanto aos iniciados, com sua qualidade de registro histórico, sua riqueza de informações e seus alegres detalhes- quem imaginaria Renato Russo aos quatorze, ouvindo Emerson, Lake & Palmer?

Entrevista com Carlos Marcelo

Seu livro chama-se "Renato Russo- filho da revolução", e justamente o paralelo que se traça entre o crescimento de Renato e o de Brasília- bem como os eventos e conflitos lá ocorridos- é um dos mais ricos do livro. A idéia original já contemplava este formato ou ele foi ganhando importância ao longo do projeto?

A primeira idéia era reconstituir um período crucial da vida do Renato Russo, quando ele era apenas Renato Manfredini Júnior, mais um jovem que saiu do Rio de Janeiro para morar na nova capital do país por conta da transferência dos pais. Sempre me chamou atenção o fato de Renato ter nascido no mesmo ano de Brasília, 1960, e ter chegado à cidade treze anos depois; ou seja, ambos passaram pela adolescência, tradicionamente uma fase de grandes descobertas e confrontos, no mesmo período de existência. Ao traçar, logo no início, o paralelo com a cidade, ficou mais fácil delimitar o território a ser criado para inserir o personagem nesse cenário, para usar uma imagem do escritor Alan Pauls ao falar do seu caudaloso romance O Passado. Com, óbvio, uma diferença básica: o argentino fez uma história de ficção; já o meu propósito sempre foi o de escrever um livro-reportagem não apenas sobre o líder de uma banda de rock, mas sobre a sua relação com o momento histórico que atravessava o Brasil. Daí o fato de o primeiro capítulo ser bem mais longo e um pouco mais rebuscado do que os outros subsequentes e, propositalmente, ter períodos e parágrafos igualmente extensos. É o momento "rock progressivo" do livro...

Lendo o livro é impossível não notar a riqueza de detalhes, desde os filmes que Renato via na infância até as bandas de rock progressivo que o influenciavam na adolescência, quanto tempo de pesquisa foi necessário antes de você começar a redigir?


Como, por motivos profissionais, não tinha condições de me dedicar exclusivamente ao projeto, foram sete anos de pesquisas, entrevistas e checagens, mais um ano e meio para escrever (e reescrever, e reescrever, e reescrever...) as 416 páginas. Nesse período, algumas descobertas foram particularmente recompensadoras, como a localização, consulta e reprodução dos processos das músicas de Renato que foram alvo da Divisão de Censura de Diversões Públicas. Entre eles, um datado de 1981, ainda dos tempos de Aborto Elétrico, com o veto da música "Heroína". E foi no meio dessa jornada que tomei a mais complicada das decisões: narrar em tempo presente, intercalando o cotidiano do Renato (e de outros jovens, todos à época anônimos) com os fatos que marcaram a história da cidade e do país. Isso deu trabalho: foi como montar um gigantesco quebra-cabeças sem saber de antemão quantas peças serão necessárias para acabar a brincadeira.
Tudo porque intuí que o narrador da história deveria ser onipresente, mas jamais onisciente - não há, no corpo do texto, nenhuma explicação do tipo "e, por ter lido nos jornais sobre um famoso grupo terrorista alemão, ele resolveu batizar anos depois uma de suas músicas com o nome de Baader-Meinhof Blues". Resolvi me abster de análises e de juízos de valor para confiar na inteligência e na sensibilidade do leitor. Acho que ele é capaz de identificar na citação do trecho de discurso do senador Francelino Pereira, à época presidente da Arena, a origem da frase "Que país é este", para citar o exemplo mais óbvio, e outros menos conhecidos, como o fato de Sergio Britto dos Titãs também ter morado em Brasília e ser um "filho da revolução" (e, a partir da história dele e de seu pai, ser possível traçar um rápido paralelo com a ditadura chilena) ou o processo de transformação, na capital recém-inaugurada, do funcionário público Ney de Souza Pereira no cantor Ney Matogrosso.

Na condição de criador do livro e fã da Legião Urbana, qual passagem ou motivo principal pelo qual você acha que os fãs do grupo devem lê-lo?


O acesso permitido pela família Manfredini ao apartamento de Renato em Ipanema, onde estão guardados dezenas de manuscritos do cantor, entre eles letras inéditas e rascunhos de diversas fases de sua vida, fez grande diferença e trouxe para o livro uma riqueza iconográfica que, acredito, seja de interesse dos fãs.
Há, por exemplo, a publicação de uma letra, "Setor de Diversões Sul", na qual Renato invoca dois de seus personagens mais conhecidos - Eduardo e Mônica - para tentar resgatá-lo da depressão na área mais barra-pesada do Plano Piloto de Brasília. A reconstituição da apresentação da Legião no Mané Garrincha em 1988, talvez o show mais conturbado da história do rock brasileiro, com a reprodução integral das intervenções de Renato e das reações do público também podem saciar a curiosidade de quem não viveu aquela época.
Mas acredito que o livro pode interessar não só aos fãs da Legião Urbana mas aos que se interessam pela história recente da música popular brasileira e do próprio país. Porque, antes de tudo, tento enxergar "Renato Russo - o Filho da Revolução" como um livro sobre utopias - de uma nova ordem na música brasileira, de uma nova capital, de um novo país -, algumas realizações e muitas desilusões.

*[publicada na Rolling Stone de junho de 2009]

Romantismo tardio.

Em clima descompromissado, Dylan se vale de acordeom para conduzir seu novo trabalho.


O título Juntos pela vida (Together through life) refere-se ao clima romântico presente no novo trabalho de Bob Dylan- amarrado com a bela foto de Bruce Davidson- mas também serve facilmente como descrição de sua relação com seus fãs. Com quase 68 anos, o cantor lança seu álbum de número 33, dando continuidade e mudando os rumos de sua carreira de rara longevidade.


Ao contrário de seus antecessores (Modern Times de 2006 e “Love and Theft” de 2001), Together through life surge quase nu de elaboração, abrindo mão das muitas camadas sonoras, da profusão de instrumentos e das canções mais longas geralmente esperadas- e presentes- nos trabalhos do compositor. O fato de o disco ter surgido de modo quase improvisado, surpreendendo até mesmo sua gravadora, legitima essa diferença- Dylan conta que trabalhando na canção “Life is hard” para o novo filme do diretor francês Olivier Dahan (“Piaf- Um hino ao amor”), outras foram surgindo naturalmente, o que o motivou a transformá-las em álbum.


Este tom de descompromisso segue impresso nas dez canções que o compõem- em sua maioria baladas românticas norteadas pelo som do acordeom, como em “This dream of you” - tornando-o um trabalho menor dentro da discografia do cantor. Este mesmo tom acaba remetendo a lados B´s como “Romance in Durango” do álbum Desire (1976)- também surgido de modo não planejado após o clássico Blood on the tracks (1975)- que ao invés do acordeom, se valia de um violino em todas as faixas.


Os pontos altos do disco estão em “My wife´s home town”, “It´s all good” e “I feel a change comin’ on”. Na primeira, Dylan homenageia Willie Dixon arremedando a melodia de “I just wanna make love to you”, na segunda retoma uma pegada mais roqueira e a habitual ironia de suas letas, e na última- uma bela canção, claramente otimista- admite que tem ouvido Billy Joe Shaver e lido James Joyce (I'm listening to Billy Joe Shaver/And I'm reading James Joyce).

Se os versos forem verdadeiros, não há o que se temer, a companhia é boa. Que venha o próximo álbum.


*[publicada na Rolling Stone de junho de 2009]





"Se ao menos eu tivesse escrito as letras!"


Garapa.

Novo trabalho de Padilha documenta a fome.




Antes de ser arte, Garapa é um chamado à ação.

José Padilha dá continuidade à sua carreira abordando mais um fato social que precisa ser não só denunciado, mas atentado e combatido: a fome. O diretor que ganhou renome com o documentário Ônibus 174 e com Tropa de elite, retrata agora- por meio do dia-a-dia de três famílias do sertão do Ceará- as condições precárias de vida que se submete boa parcela da população brasileira. A ausência de alimentos torna a ingestão de garapa- água fervida com açúcar- uma solução para a sobrevivência. A burocracia e a baixa escolaridade afastam muitas famílias dos benefícios paleativos de programas como o “Fome zero” e o “Bolsa-escola”. Os dados oficiais dão conta que pelo menos 920 milhões de pessoas no mundo vivem em situação semelhante.

Antes de discutir o “preto-e-branco granulado” do filme ou a intervenção do cineasta no “objeto de estudo” (dar remédio a uma criança) -como foi feito por alguns puristas- é preciso discutir sim, a postura de mero observador praticada por muitos, que vem a ocasionar justamente a situação retratada no documentário.

Conversas com Woody Allen.


Livro de entrevistas esmiuça quase quatro décadas de trabalho do diretor.


Eric Lax tornou-se amigo e biógrafo de Woody Allen por acaso. Quando teve sua matéria sobre o comediante recusada na New York Times Magazine, resolveu enviá-la a Woody como agradecimento pela atenção dada. O novato diretor -estamos em 1971- gostou tanto do texto, pelo fato de reproduzir com precisão suas piadas, que convidou Eric a aparecer em sua sala de montagem quando quisesse. O material bruto de Conversas com Woody Allen vem justamente das muitas visitas feitas pelo jornalista em 36 anos de convívio com o cineasta. As entrevistas do livro estão divididas em oito partes que contemplam as mais variadas fases do processo de se fazer um filme- idéia, escrita, trilha sonora, montagem- e um apanhado final da carreira do diretor. Justamente quando perguntado sobre a longevidade de sua carreira, Allen solta uma das muitas pérolas do livro: “Com o que aprendi debruçado nos meus livros de mágica quando era criança consegui produzir uma brilhante ilusão que já dura 50 anos”. Essencial para fãs de cinema, comédia, psicanálise, Nova York, judaísmo, Bergman...


*[publicada na Rolling Stone de maio de 2009]

On the road.

Versão original do clássico beat é finalmente publicada.



Nos Estados Unidos pós Segunda Guerra Mundial, três artistas forjavam o cerne de uma nova contracultura baseada em espontaneidade e instinto- Jackson Pollock com suas pinceladas furiosas, Charlie Parker com os vertiginosos movimentos em espiral de seu sax e Jack Kerouac com sua escrita frenética.
Reza a lenda, difundida pelo próprio escritor, que as 125.000 palavras que compõem “On The Road” foram escritas entre 2 e 22 de abril de 1951. Kerouac teria ficado este período sob o uso constante de benzedrina, com seu rádio sintonizado em uma estação de bop, datilografando febrilmente sua obra-prima em um rolo de papel de 36 metros de comprimento inserido na máquina de escrever- “sem qualquer divisão de parágrafos, deixando que o papel se desenrolasse pelo chão, como uma estrada”.
Apesar da velocidade do autor, foram necessários seis anos de edição e muitas revisões para que o clássico gerado em três semanas fosse finalmente publicado. Agora, mais de 50 anos após sua feitura, é a vez do lendário rolo original, acompanhado de mais quatro ensaios sobre a obra nesta caprichada edição.

*[publicada na revista Rolling Stone de março de 2009]