terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Cachaça.

amiga minha culpa a cachaça pela glicose na veia depois da festa de peão e por ter agredido a irmã quando essa veio socorrê-la- "traidora!!!" foi o grito ouvido pelo povo .


ora, cachaça é pra ser bebida sentado, com a verve frouxa, em ambiente de poesia e com sua moça ao lado. reza a sabedoria do cordel paraibano de zé leite que quem tomar um porre brabo vê o pau comer no centro, que pega fogo por dentro e esquenta até o rabo.

logo, é bem-vinda a benção de joão cabral, pai de todos, e a graça de jorge amado- que era entendido no assunto.


ter sempre em mente que o nome da marvada pode ser bastante evocativo. uma vez tomada a “senhora da colheita”, eis um milharal infindo; o sol quente e o estômago varado pelos seus raios. com a “rainha pernambucana” trava-se armorial conhecimento e se é coroado rei das valetas. a “marimbondo” do pernambuco farpeia o buxo e a da paraíba, os rins. com a “rosa do sertão” de cordisburgo são muitas as veredas abertas. para dias de viço, "só na xoxota".


ser elusivo e misterioso quando se pede uma pinga ajuda a compor uma bela história em torno de si. com camisa xadrez aberta até o osso externo:

“lá vem o pernambuco. olha a groenlândia de pêlos no peito dele”.


bebendo muito também se ganha conceito:

“o homem leva de eito, dizem que tem a foice e o martelo tatuados logo acima das costelas.”.


a fermentação documentada vem dos egípcios. curavam-se as moléstias com a inalação dos aromatizados e fermentados num ambiente fechado. nunca em ambiente com coletividade em excesso, nunca em barretos, nunca agitando o laço, nunca ouvindo “anarriê”.

3 comentários:

Ana Paula disse...

Q. Lins,

É tudo verdade.
A cachaça é o próprio sofrimento materializado. Foi ela que sempre serviu aos marginalizados: das senzalas, das fazendas, das estradas, dos subúrbios e que os poetas entornaram com altas doses de tristeza e subversão.
Hoje, os homens de meias pretas a preferem a Premium Price, rotuladas com design e direção de arte. Imputando-lhe a imagem “exótica” das brasilidades do mundo profanado dos trópicos. A ela associa-se ao prazer e a sofisticação. Nem uma sombra dos índices no trabalho infantil do IBGE.
Dos usos da cana, o da cachaça é o mais nobre. O etanol é o primo babaca, politicamente correto e reacionário por natureza (papai Geisel).
Uma coisa Q.Lins sou obrigada a discordar, nada de damas ao lado. A ritualística do meu bêbado imaginário é absolutamente solitária. Bar vazio, mesa, garçom e lágrimas de açúcar. A mulher saiu com outro. Provavelmente com o cara de meias pretas aí de cima. Mas traço a você todas os louvores por tê -la construído com alegorias. No cogito das cañas – Penso, logo pego mais uma! Sem reduzir suas metafísicas, nem distribuir em rodeios.
Aos que ainda crêem na mística que ainda a RODEIA. Fica uma. Rauzito tomava sua dose toda manhã à cowboy no boteco. Batida com lingüiça. Cheia de transcendência, melancolia e marxismos.
Sem mais.

Thiago Lins disse...

Querida Aninha antroposocióloga e astróloga,
Que medo da sua retórica telúrica! Imagino toda uma geração de atroponeófitos sendo agredidos por sua fúria intelectual.
Quanto à dama ao lado, sou um libriano amoroso e gregário e não abro mão da bela moça impedindo que eu afague demais a terra.
Quanto às meias, prefiro as amarelas.
Quanto a Raul Seixas, eu só posso parafrasear o velho mestre: "Derramar cachaça em automóvel é a coisa mais sem graça de que já ouvi falar.".
E tenho dito.

Claudia disse...

Adorei o texto - apesar de ainda ser a favor de socializações alcoólicas.