segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Aprendizado em Paris.

Vilas Matas conta os percalços de uma temporada em Paris nos idos anos 70, época em que tentava escrever seu primeiro romance.

“Sou conferência ou romance? Thomas Mann ou Hemingway?” pergunta o narrador de “Paris não tem fim” a certa altura do livro.

O escritor espanhol Enrique Vilas Matas novamente confunde ficção com realidade (apesar de jurar, que, desta vez não inventou nada) em seu quarto livro lançado no país pela editora CosacNaify.

Paris não tem fim, antes de tudo, é uma clara homenagem e cria de “Paris é uma festa” de Ernest Hemingway.

Escrito em forma de conferência- ministrada pelo narrador- o livro retrata os anos de aprendizagem de Vilas Matas na Paris dos anos 70. A Paris onde os ecos de maio de 68 ainda eram palpáveis; apesar deste fato não dar mostras de afetá-lo tanto quanto sua preocupação em parecer ser um escritor: “Comecei a usar óculos intelectuais e ridículo cachimbo satriano, camisa e calça rigorosamente negras, óculos também negros, o rosto hermético, ausente, terrivelmente moderno: tudo negro, até o futuro. Queria ser apenas um escritor maldito, o mais elegante dos desesperados.”

Influenciado pela atmosfera de Paris retratada e vivida por Hemingway na década de 20, o jovem Vilas Matas decide que também deve morar na “cidade das luzes” e, lá, escrever seu primeiro romance- que àquela altura ainda não tinha nome, mas que viria a tornar-se “A assassina ilustrada”. No entanto, ao contrário de Hemingway que foi “muito pobre e muito feliz em Paris”, o irônico catalão, revela o quanto foi “muito pobre e muito infeliz” na mesma cidade.

Ao invés de conviver com Gertrude Stein- que décadas atrás alcunhara a comunidade de expatriados a que pertencia Hemingway de “geração perdida” - Vilas Matas convive, e tem como senhoria, uma rígida e soturna Marguerite Duras, que só fazia crescer o seu já habitual pavor pela escrita (apesar de ter sido decisiva ao dar uma apostila sobre a arte de escrever ao neófito escritor). O catalão também não teve a oportunidade de conviver com F.Scott Fitzgerald, Ezra Pound ou James Joyce, mas sim com Raúl Escari, seu amigo que “compartilhava um joint com William Burroughs” no alto da Notre Dame e não fazia o favor de chamá-lo.

Paris não tem fim é um delicioso romance de formação onde podemos acompanhar seu autor em uma época onde ainda era um “apaixonado promotor de qualquer idéia de caos e um entusiasta de sua própria desordem”. Bom, talvez ele ainda o seja.

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