quarta-feira, 24 de setembro de 2008

A moleira do misantropo ou o complexo de épico revisitado.

Associo, com ou sem razão, minha misantropia aos buffets infantis freqüentados- a contragosto- na minha mais tenra idade. Meus anos de formação, onde minha moleirinha ainda era maleável, foram preenchidos por idas forçadas às mais variadas balbúrdias provincianas onde me sentia “o último lúcido entre os infantes”.
Mamãe se orgulhava de não ter de segurar os pasteizinhos pra mim.
Aos seis, já sabia que o cartunista tinha criado o gato gordo à imagem de seu tio e comentava as crises existenciais felinas aos meus compatriotas de pré-primário que se deleitavam ao ingerir bons punhados de areia.
Com o seguir da carruagem, os buffets viraram matinês com nomes oriundos de neologismos grosseiros e americanismos desnecessários. A matilha que se amontoava ferozmente próxima aos brigadeiros se banqueteava, agora, em torno das gatas (refiro-me aqui a moças em idade de ficarem prenhas e não ao felino supracitado).
O processo de comunicação era quase o mesmo, porém o guaraná Taí dava agora gosto às vodkas e as mães tiveram que, novamente, limpar o vômito da prole.
Cresci, criei barba, entrei pra faculdade e, finalmente, perdi o cabaço.
Mamãe se orgulhava do filho bacharel. Faculdade passada com Godard, Thoreau e mais meia dúzia de nomes bonitos de se falar.
Criei barriga, arrumei trabalho. Do trabalho, pra igreja. Do compromisso a el fuoda-se.
Genalva, vem me buscar que eu estou odiando; Genalva, me trás o pijama; Genalva, se chamarem, diga que eu saí; Genalva, me faz um miojo.”
Mamãe se orgulhava do filho casado.
Foi um bom período aquele com Genalva. Quase esqueci que sou triste. Quase comecei a gostar de gente. No natal, já desossava o tender. Na páscoa já escondia os ovos. No São João já bebia quentão. Nos Bar Mitzváhs já levantava a cadeira.
Me vi segurando copo de vinho e rindo entre as gentes, me vi em inaugurações de empreendimentos imobiliários, me vi nadando em clubes de campo, me vi flanando pelas ruas com o tronco em riste, me vi roubando gérberas e crisântemos, me vi soltando papagaios, libertando pombas e angariando canários.
Finalmente, me vi sendo o ido, o que parecia morto; Genalva se foi, e assim fui eu.
Mamãe ainda se orgulha de mim.

*[texto feito para a promoção "encaixe" da revista Piauí]

3 comentários:

Marília Munhoz disse...

Chame-me " mamãe"!
Mas não me venha com seu complexo de édipo, filho ... hsuahs
Adoro a maneira que vc escreve, descreve; não tens a frieza dos parnasianistas mas, sim, o mesmo apego às palavras, trabalha como o ourives, que tanto invejavam.
Que medo que tenho quando me dão o poder da fala, ou do comentário ... vc sabe ashaha
Mas deixo aqui minha face estática na surpresa e a promessa de lhe ser leitora fiel e assídua!
beijinhos " divinais", caro caríssimo.
ps: "cabeça de tartaruga, te vejo famoso velhinho"

Thiago Lins disse...

caríssima pastora marília.
sabia que você estrearia este porta texto. coro com os elogios e torço pra que outros também achem aqui todo o cinismo que procuram. não me arrisco a te chamar de mamãe, mas o marido de genalva diz que quer botar o épico pra cima de ti. beijos deveras divinias.

Roberta disse...

Ô fio, maravilha! Faz mais um pra gente ler!!!